quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

nº 2149 Artigo - Celebração Memorial

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
Memória de Mim 
Temos visto as realidades da vida cristã. Elas sempre nos levam à vida do dia a dia, não permitindo que as palavras fiquem somente em palavras. Ouvimos, rezamos, e celebramos em todas as missas as sagradas palavras: “Fazei isto em memória de mim”, como nos comunicou Paulo quando ensina aos coríntios sobre a Ceia do Senhor. E já era uma tradição firme na comunidade: “O que recebi vos transmiti.... Isto é o meu corpo que é partido por vós... fazei isto em memória de mim” ...quanto ao cálice: “todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim. Todas as vezes que comeis desse pão ou bebeis do cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha”(1Cor 11,23-27). Ele nos traz, não só representa o sacrifício, o sacrifício da cruz, para que sua memória permanecesse para sempre, até sua volta. O termo memória passou por muitas compreensões no correr dos séculos. Agora foi reafirmado com segurança. Não se trata somente de dizer o que se faz, mas o que se deve viver. Memorial que torna real o que é apresentado. O tema foi muito trabalhado por muitos e de diversas denominações cristãs. É fundamental para a vida da Igreja, pois é na Eucaristia que ela se realiza. Por isso, não podemos ficar somente num ato de fé, mas numa celebração do Mistério de Cristo que penetra a vida dos cristãos. Por isso, passar do assistir a missa para vivê-la, é mudança radical na vida cristã. Enquanto a Eucaristia não for vida de nossa vida, não estaremos celebrando de modo condizente. Corpo dado, sangue derramado Fazemos um ato de fé na Eucaristia, no momento da consagração da Missa. Reverenciamos e adoramos o Santíssimo, pois sabemos que é o Corpo do Senhor. Quando Jesus disse essas palavras, Ele estava iniciando sua caminhada para sua entrega. O Mistério não é só algo proclamado, mas realizado. A devoção mal informada afastou a fé da vida. Certamente não esgotaremos o conhecimento de tão grande dom. Ele é a realização de todo o projeto de Deus de Se comunicar à humanidade. Isso o faz através do Filho em seu mistério de entrega para a Vida. É o movimento Divino. Não basta a veneração. Há aquele que preside, mas a celebração é de todos. Ao participarmos desse momento, entramos no movimento realizado por Jesus. Quando ouvimos “Corpo que é dado, Sangue que é derramado”, estamos participando do mistério para que seja feito também por nós e em nós. É nosso corpo que é entregue. É nosso sangue que é derramado. Não narramos o Mistério Pascal de Jesus, mas o realizamos. Assim se atualiza para nós e no mundo, a salvação. Celebrar tem também a característica de “imitar” pela memória. Realizamos o mesmo passo. 
Vivendo a Memória 
Fazer memória não é só lembrar. Não é somente um ato intelectual. Mas um modo de vida. Quando fazemos a memória eucarística, torna presente o Senhor. A Eucaristia continua na vida, pois levamos conosco o Senhor e O fazemos presente. Somos memórias vivas. Lembramos as palavras de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). Cristo está em nós, não é como uma jóia escondida, mas como um sol que nasce. Doar a vida é celebrar a Eucaristia no dia a dia. Fazer memória é trazer, pela vida, a presença daquele que nos amou se por nós se entregou. Quando dizemos meu corpo por vós entregue é nossa entrega como a de Cristo que foi fiel até o fim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

nº 2148 Homilia do 6º Domingo Comum (13.02.22)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Fácil ser Feliz”
  Benditos vós... 
Deus, no alto do Monte Sinai, deu a Moisés os dez mandamentos que são a síntese de tudo que é amor. Tem-se a impressão de uma lei que é imposta, proibições que parecem cercear a vida. Essa mentalidade não pode obscurecer o grande carinho de Deus que cuida do que é humano. Os mandamentos abarcam o Divino e o humano. Jesus, novo Moisés, não sobe o monte, mas desce para o meio do povo. Mais que ensinar decretos, reconhece no coração dos humildes a bondade aprendida de Deus: “Bem-aventurados vós”. Lucas, diferentemente de Mateus, apresenta uma lista resumida. Resume tudo no coração do pobre, sofredor e perseguido por causa de Jesus. Esses recebem tudo o que Deus tem a nos oferecer: o Reino, a saciedade, o consolo e a recompensa. É uma síntese completa do que diz Mateus. Por outro lado, apresenta as maldições que sofrem os que confiam só na riqueza, na fartura, no divertimento e na vaidade. Esses são malditos. Podemos dizer infelizes. Não vivem em Deus. Jeremias explicita essa maldição: “Maldito o homem que confia no homem... e afasta seu coração do Senhor. Não floresce. É como planta no deserto” (Jr 17,5-6). E renova a esperança: “Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada junto às águas” (id 7-8). O profeta apresenta uma realidade da natureza: as raízes buscam a água. Por isso não temem o calor, mantêm-se verde sempre e dão fruto. Assim é a vida cristã: buscar onde está a vida animada pela fé. 
Confia no Senhor 
O que significa confiar no Senhor? Mateus, quando anuncia as bem-aventuranças, diz que Jesus subiu o monte (Mt 5,1). O evangelho de Lucas coloca Jesus no meio do povo. Inspira confiança. Pela encarnação, Jesus está entre nós. No meio do povo. A fé é também uma questão da proximidade de coração. Jesus fala olhando nos olhos. O termo bem-aventurado, traduz-se abençoado, aquele que obteve o favor de Deus. Jesus não dá uma aula dizendo como devem ser, mas diz o que são: “Bem-aventurados vós”. Esse diálogo com o povo abre espaço a uma proximidade sempre maior dos discípulos. Podemos fazer uma leitura do coração dos discípulos de Jesus. Essa confiança Nele é porque Ele demonstrou confiança neles. Confiar no Senhor é acolher o Reino de Deus. Os que não confiam são os que perseguirão os discípulos, pois a recusa a Jesus vai penetrar seus corações. Por isso vemos essa ojeriza contra os cristãos católicos. Quando se diz: malditos, podemos dizer infelizes. O hebraico sempre trabalha com oposições. O que perdem esses infelizes? Sua consolação é passageira, a riqueza não sustenta o ser humano como um todo. Há outros infortúnios. A bajulação não sustenta o ser humano. Elogio falso não constrói. 
Garantia de ressurreição 
O texto sobre a Ressurreição, no conjunto da liturgia de hoje, não está colocado como parte do tema das bem-aventuranças. Mas podemos compreender que a ressurreição não é só um fato único que acontece no final de nossa história. É início da vida eterna. Ela está presente como vida para os que buscam viver as bem-aventuranças. Se não acreditamos na ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Sem a ressurreição de Cristo nossa fé não tem razão de ser. A Ressurreição não é um momento após o final de nossa vida. Ela vai acontecendo sempre mais, cada vez que vivemos as bem-aventuranças como caminho de ressurreição. 
Leituras:Jeremias17,5-8;Salmo1;
1Coríntios15,12.16-20;Lucas6,17.20-26. 
Ficha nº 2148 
Homilia do 6º Domingo Comum(13.02.22) 
1. Lucas reconhece no coração dos humildes a bondade aprendida de Deus: 
2. Confiar no Senhor é acolher o Reino de Deus. 
3. A Ressurreição acontece cada vez que vivemos as bem-aventuranças.
Felicidade de bolso furado 
Bolso furado mais perde do que guarda as coisas. Quando a gente quer dar uma de bom, a gente pisa e passa por cima. É como colocar a vida num bolso furado. É uma felicidade brocada. E acabamos levando. Poder não dura. Riqueza enferruja, alegrias passam. Tudo se evapora. É vida num bolso furado. Felicidade, quando não tem o coração cheio da bem-aventurança, é uma falsidade. Tudo falácia. É um depósito furado, uma caixa d’água rachada. Um banco falido. Tudo enferruja. Para viver bem, não é preciso muito. Para compartilhar é preciso de pouco. Para sorrir, basta um olhar de carinho. Para saciar é preciso um pouco do nada que somos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

nº 2147 Artigo - Tempos da liturgia

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
Um calendário a viver 
Quando falamos de calendário, podemos pensar que não passa de uma folhinha. Aprofundando, descobrimos que é o retrato vivo de nosso caminho espiritual de Igreja. Fazemos tantas fotos da vida. No calendário estão as fotos e as datas das celebrações. O calendário é o caminho espiritual a ser percorrido durante o círculo de um ano. Passamos pelas diversas etapas do Ano Litúrgico, não tanto para ter conhecimento do que acontece, mas para assumir caminhos que nos levarão a viver o mistério em sua integridade. Mudança de um ano não é uma repetição, mas um caminho novo. Serão realizadas as mesmas festas, as mesmas cerimônias e vividas as mesmas inspirações. Mas é tudo novo na vivência do mesmo mistério. Todo o dia somos novos, em uma nova vida. Uma missa nunca é a mesma. Um evangelho proclamado não é o mesmo. O que dá vida sempre nova é o Deus que fala por meio dele. Se nos abrirmos à novidade, Deus sempre fala de modo sempre novo. A celebração é um encontro sempre novo. É justamente aqui que perdemos a riqueza das celebrações. Somos sempre novos porque nos abrimos ao Deus que nos fala sempre de modo novo. Assim o calendário é um retrato estático, mas um caminho animado pelo Espírito Santo é quem faz nosso culto, nossa celebração ir a Deus. Como rezamos em Cristo e por Cristo, estamos sempre na unidade do Espírito Santo. Toda celebração é a escada de Jacó “pela qual os anjos descem e sobem” (Gn 28,11-19). 
As cores da oração 
Quando preparamos uma celebração, fazemos bem tudo o que é preciso. E usamos diversos elementos. Tudo em nós celebra. Cada elemento nos atinge em um sentido diferente: os olhos, pela beleza; os ouvidos, pela música; o tato, pelos movimentos; odor, pela respiração. Nossa celebração transformou-se um estático ouvir. Conhecendo as danças litúrgicas dos povos africanos, percebemos como o corpo reza. É a escada do louvor: pela palavra se reza a oração, canta-se a oração e pelo movimento, dança-se a oração. É todo corpo que reza, não só a mente. As cores da liturgia atingem nossos olhos e nos dão o humor espiritual a viver naquela celebração: alegria pelo branco, esperança pelo verde, reflexão pelo roxo, amor e sangue oferecido pelo vermelho e pelo Espírito Santo. Ternura mariana pelo azul. Alegria festiva pelo dourado. Cada oração tem seu humor espiritual. O preto era usado para a morte, mas foi substituído pelo roxo. Os sentidos participam da celebração. Toda a ornamentação e o perfume das flores e do incenso coroam a integridade da oração. Deus responde através também dos sentidos. A oração envolve o ser humano que se comunica e recebe a resposta de Deus na totalidade do ser. Cantar ou ouvir o canto é penetrar o coração que fala na beleza da música e da voz. 
Corpo que celebra 
A celebração não é um fato intelectual somente, mas assume a pessoa no seu todo. Os gestos completam a extensão da oração. Sentar-se para ouvir, ajoelhar-se para mostrar a contrição, movimentar-se em direção ao altar que é a busca permanente das águas vivas. Prostrar-se (raro) revela a intensidade da entrega e do acolhimento. Abraçar-se realiza a fraternidade. Aplaudir expressa a alegria do amém. Os sentimentos nos levam a interiorizar tudo o que Deus nos fala. Tanto os sentimentos que trazemos como os que recebemos do Pai, no gozo espiritual, completam a mística do encontro em Cristo, entre os irmãos, na força do Espírito que sustenta nosso corpo frágil e aberto a Deus.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

nº 2146 Homilia do 5º Domingo Comum (06.02.22)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Vinde após Mim”
 Força da Palavra 
O mar da Galiléia, que não é um mar, mas um lago tem a forma de um instrumento musical chamado “kíneret”. Tem 20 km de comprimento e 12 de largura, tendo de 20 a 230 metros de profundidade. Era um centro importante pelo comércio e pela fertilidade das terras cobiçadas por tantos povos. Esse mar, além das águas perigosas, é abundante em peixe. Ele é o cenário do início da pregação de Jesus. Jesus inicia sua pregação e seus milagres, mas também começa a “pescar” seus primeiros discípulos: “Não tenhas medo! De hoje em diante serás pescador de homens. Então levaram suas barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus” (Lc 5,10-11). A força da missão que recebem está nas palavras de Jesus que leva à pesca milagrosa. Como tivessem pescado a noite toda, sem nada pegar, lançam as redes novamente com uma certeza: “Em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. Aí veio a pesca abundante. Isaias se declara frágil e de lábios impuros diante da magnífica manifestação de Deus. Foi tocado pela brasa do altar. É do altar que se tiram as forças da palavra anunciada. Diz o jovem profeta: “Aqui estou, enviai-me”. A fragilidade humana nunca foi empecilho para a força de Deus se manifestar. Quem era mais frágil que os apóstolos? Isaías se declara perdido e se considera “um homem de lábios impuros”. Nessa manifestação de Deus, teria uns 25 anos. O convite de Deus é uma ordem. Mais que um dever, é uma união com a origem da Palavra que é o próprio Deus que envia em seu nome. Jesus chama e dá a força de sua Palavra. 
Altar que cura 
A fragilidade do homem diante de Deus é uma das melhores condições para que a força de Deus se manifeste. As escolhas de Deus são fruto de sua predileção pela simplicidade. Nada podemos sem Deus. A força da Palavra está na sua origem. Isaías tem a visão da grandiosidade de Deus que Se abaixa para escolher quem envia. Jesus diz aos discípulos para levarem a barca para as águas profundas. O campo para onde Jesus envia seus discípulos é o mar profundo do mundo. A Palavra não é superficial: ela vai ao profundo do ser humano onde está nossa verdadeira situação. Ali é que o Evangelho toca e muda. Não podemos mudar a tinta de nossa realidade. Jesus muda o homem pela sua raiz que é o centro de suas decisões. Escolher o Evangelho e ser batizado é erradicar o homem de suas opções e levar à opção vital por Cristo. Cristo só foi constituído Senhor, a partir de sua morte que o levou à ressurreição. Ele pode nos atingir pela raiz. Assim são os cristãos que tomam atitudes. Eles mudam suas vidas totalmente para viver a Palavra. Não pode haver meias medidas. Não são verdadeiras. São feitas segundo nosso modelo e não em Cristo. A imagem de Cristo foi implantada em nós. Refletimos sua verdade. 
O que recebi, transmiti 
A chamada que Deus faz, tanto a Isaías como aos apóstolos, procede Dele próprio Deus que envia. Não anunciamos palavras, mas a Pessoa concreta do Pai e de Jesus que no Espírito chega até às pessoas. Por isso Paulo diz que: “Eu vos transmiti o que recebi” (1Cor 15,3). A mensagem se identifica com o anunciado. Ao falar de Jesus, não transmitimos ideias, mas uma Pessoa. É por isso que podemos notar que na missão dos apóstolos havia tanto vigor. Como se justificar que homens simples tenham levado o Evangelho com tanto efeito? Não só a eles se referem essas palavras, mas a todo aquele que o anuncia. 
Leituras:Isaias6,1-2ª.3-8;Salmo137;
1 coríntios 15,3-8.11;Lucas 5,1-11. 
Ficha nº 2146
Homilia do 5º Domingo Comum(06.02.22) 
1. A força da missão que recebem está nas palavras de Jesus que leva à pesca milagrosa. 
2. Jesus muda o homem pela sua raiz, onde está o centro das decisões. 3. Ao falar de Jesus, não transmitimos ideias, mas uma Pessoa. 
Concurso de fraqueza 
Parece que Deus quando quer gente para uma função ou missão importante, começa de trás para a frente. Claro que conta com os que se prepararam, mas escolhe cada um de nós que somos tão fracos e nos sentimos despreparados. Pior é que são esses que resolvem, pois sendo fracos dão tudo de si e não sentem substitutos de Deus. Deus, de vez em quando, vai à lata de lixo. Aqueles que foram desprezados por serem fracos e burrinhos é que resolvem os problemas, pois só têm a Deus como solução. Vemos o caso de tantos santos, como São João Maria Vianey, Beato Pedro Donders, São Geraldo que foi chamado de inútil, quando se apresentou para a entrar na Congregação. Santa Catarina de Sena (analfabeta) e tantos... Da fraqueza surgiu a força. Há santos sabidos, preparados, mas que eram humildes. Alguns topetudos, Deus dá uma rasteira neles.

nº 2145 Artigo - O tempo litúrgico

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
Riquezas do tempo litúrgico 
Ao comunicar-Se conosco, Deus não nos tirou de nossa realidade, mas penetrou-a de sua graça, dando-nos a possibilidade de encontrá-Lo em todo tempo e lugar. O Filho de Deus, na Encarnação, assumiu a natureza humana e também o mundo em que vivia, sua história e sua cultura. Foi gente de sua gente. Assim, o tempo foi santificado com sua presença. Em Deus não há a categoria tempo. Jesus assumiu essa condição para nos deixar claro que vivemos no tempo para nos santificarmos, isto é, viver no tempo a Vida Divina que nos foi dada. Como a liturgia é a celebração do Mistério de Cristo, sua vida, sua Morte, sua Ressurreição e sua Ascensão acontecem no tempo. Desse modo o tempo litúrgico nos oferece ampla participação das riquezas da liturgia que é a celebração de Cristo no tempo. As celebrações não são realidades que se repetem, mas é o mesmo mistério sempre novo e sempre antigo. Conhecemos mais e podemos viver melhor para celebrar com maior fé. A celebração é uma fonte que sempre jorra a mesma água, sempre fresca e nova. Sempre vamos a uma celebração como se fosse a primeira. E a mesma palavra e mesmos ritos nos oferecem a novidade do Reino. O motivo fundamental é que a celebração é um mistério. Não por ser incompreensível, (às vezes o fazemos), mas por ser memorial. Fazemos memória sacramental. Os fatos se tornam presentes com o mesmo vigor de vida e mesma capacidade de oferecer a salvação. Podemos vivê-los, sempre, com a mesma intensidade e identidade. 
O culto se organiza 
A Igreja organizou o tempo litúrgico. O culto a Deus acontece no tempo natural. Já havia no judaísmo um calendário de festas, as celebrações na sinagoga e as bênçãos domésticas. Os apóstolos, depois da Ressurreição participavam. O que tinham de próprio eram as celebrações pelas casas. Lentamente, se organizou a vida celebrativa da comunidade cristã. Em 313, os cristãos adquiriram o direito de existir no império romano. No ano, 380, quando o cristianismo se tornou religião oficial do império, começaram a organizar mais fortemente as celebrações com influências do modelo romano. Não havia templos no cristianismo. Surgiram, então, as basílicas que eram lugares da reunião da comunidade. Havia também as celebrações na Domus Ecclesiae (casa da comunidade). Houve grande influência da estrutura do Império Romano sobre a Igreja. Perdeu-se a espontaneidade e passou-se à organização do culto. Foi lenta, mas consistente. Contudo se manteve sempre a consciência de ser o culto uma ação divino-humana. Por mais difícil que fosse a compreensão das celebrações, houve sempre a ação da graça. 
Culto, caminho cristão
O culto, a celebração e a oração não são somente impulsos interiores da condição humana que busca o Criador, mas fazem parte da vida como parte do corpo, da mente e dos sentimentos. O culto é caminho espiritual. Por ele ouvimos, respondemos e colocamos em prática. O culto traz em si a graça daquele que vem ao nosso encontro e a resposta, às vezes tão frágil, daquele que busca o Senhor. A medida não se faz pelo conhecimento nem mesmo capacidade de explicitação, mas pelo movimento do coração que se abre. Não existe celebração vazia, pois quem a “enche de vida” é o Senhor. É Ele que toma a iniciativa e abre as portas de seu Ser Divino a cada um dos seus. Celebrar é sempre um dom e não só um dever. A celebração é a escada de Jacó que une a terra ao Céu.
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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

nº 2144 Homilia do 4º Domingo Comum (30.01.22)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Escolhido com amor” 
 Profissão de profeta 
Jesus, na sinagoga de Nazaré, iniciou sua missão com a solene proclamação, tirada do profeta Isaias: “O Espírito do Senhor está sobre Mim... Consagrou-Me com a unção para anunciar a boa nova aos pobres...” (Lc 4,l7ss). Está na linha da profecia de Jeremias que foi escolhido desde o seio materno (Jr 1,5). Os operários da colheita devem ser pedidos ao Pai (Lc 10,2). Os profetas autênticos são escolhidos, desde o seio materno (Jr 1,5). Sendo escolhido por Deus, recebe o Espírito Santo para essa missão. Por isso diz a Jeremias: “Eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jr 1,5). Ser consagrado é ser colocado sob a ação direta do Espírito Santo. No Batismo de Jesus vemos a manifestação de Deus: “O céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal como pomba. E do céu veio uma voz: Tu és o meu Filho bem amado. Eu, hoje te gerei!” (Lc 3,22). Lucas sempre diz que Jesus agia movido pelo Espírito Santo (Lc 4,14). Em sua missão, o profeta é anunciador do Reino de Deus: “Convertei-vos porque está próximo o Reino de Deus” (Mt 4,17) e confirma pela experiência de anunciar: “O Reino de Deus está entre vós” (Lc 17,20). Em Nazaré apresentou seu programa de missão que renova todo homem: “evangelizar os pobres, proclamar a remissão dos presos, aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18). A unção do Espírito e a missão profética se destinam à construção do Reino de Deus onde a face de Deus no homem está destruída. 
Dom mais elevado 
A caridade (o amor) é o conteúdo da profecia, como é conteúdo da Encarnação. “Foi deste modo que se manifestou o amor de Deus para conosco: Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por Ele” (1Jo 4,9). Sem o amor, a caridade em ação, a profecia e a vida cristã não existem. O amor foi a vida e o ensinamento de Jesus. Ele amou ao extremo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo do amor” (Jo. 13,11). Amou e se entregou levando ao extremo seu amor. A leitura nos leva a perceber até onde vão as consequências da opção pelo amor. O texto de Coríntios é uma leitura autobiográfica de Paulo, coisas que aprendeu de Jesus. O final desse texto monumental resume tudo: “Atualmente permanecem essas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade” (1Cor 13,13). O amor de redenção se explica pelo próprio amor de Deus. Em sua missão, como a colocou na sinagoga de Nazaré, não dizia de algo distante ou intelectual, mas de um HOJE que concretiza a ação de Deus. Sempre quando realizamos as obras do amor, estamos realizando o Hoje do Reino de Deus. Quem não age de acordo com ele é inimigos da cruz de Cristo. É o retrato do cristão inimigo do Evangelho (Fl 3,18-19). Esses são os piores inimigos da Cruz de Cristo. 
Anunciar é denunciar 
Temos visto como a pregação que toca a consciência dos cristãos que vivem uma fé sem compromisso. Precisa ver se é fé. Como sempre agridem por não terem razão. Os verdadeiros profetas sofrem o que sempre sofreram: dão a vida pela verdade. Mostrar onde estão os males da sociedade e da Igreja será sempre causa de perseguição para os profetas, como foi para Jesus em Nazaré. Naquele dia já queriam jogá-Lo num precipício. E, um dia, culminarão em colocá-Lo na cruz. É o destino dos fiéis profetas. Os falsos profetas serão sempre cortejados e apoiados. Mas vai chegar o dia da colheita. Sejamos fiéis. 
Leituras:Jeremias30.01.22;Salmo70;
1Cor 12.31-13,13; Lucas 4,21-30 
Ficha nº 2144
Homilia do 4º Domingo Comum(30.01.22) 
1. A unção do Espírito e a missão profética se destinam à construção do Reino de Deus onde a face de Deus no homem está destruída. 
2. O amor de redenção se explica pelo próprio amor de Deus. 
3. Os verdadeiros profetas sofrem o que sempre sofreram: dão a vida pela verdade. 
Conversa mole 
Fala-se tanto na Igreja! O que se resolve? Se fosse conversa que valesse, logo teria havido mudança. Muita saliva foi perdida. Gastam-se o tempo e os ouvidos dos outros. Por que não resolve? Porque não fala nada. Até não faz mal porque passa por cima das cabeças. Será que Jesus pensou como iríamos maltratar suas palavras. É verdade que o que vale é o que o Espírito Santo fala a cada um. É a salvação.

nº 2143 Artigo - Culto Litúrgico

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
Liturgia é culto 
O culto é uma dimensão do ser humano e da vida da comunidade. As pesquisas arqueológicas, quase sempre partem da descoberta de lugares de culto. Os povos nômades celebravam suas festas. Os judeus, depois de sedentários, a partir do tempo do Êxodo, foram se organizando em torno da tenda da reunião, em volta do símbolo precioso da arca da aliança. Com o estabelecimento da realeza, chegou-se à bela construção do grandioso templo. Este tinha uma bela liturgia e belos cânticos, tanto que, os que haviam levado os judeus como escravos, diziam: “Cantai-nos os cânticos de Sião” (Sl 136,3). Os cristãos não tiveram edifícios de culto nos três primeiros séculos da fé cristã. Celebravam pelas casas a ceia que foi se estruturando no rito eucarístico. A liturgia é seu culto. Seu encontro com Deus se faz na novidade de Cristo, organizando-se numa celebração comum. Sua característica é a presença de Cristo, sacerdote, que preside a celebração de todo o corpo da Igreja. A dimensão fundamental da liturgia está em sua definição no documento do Vaticano II, Sacrosanctum Concílium nº 7, diz que “Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da missa, quer na pessoa do ministro... quer nas espécies eucarísticas. Está presente nos sacramentos. Está presente na Palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente na Igreja que reza e canta”. Está presente nos diversos ministérios e serviços que se realizam no Cristo Servidor. Cristo está presente em seus mistérios.
Dimensão cultual 
Todo culto a Deus vem do próprio Deus que coloca no ser humano essa necessidade. Na Igreja, o culto tem sua origem no relacionamento do Filho com o Pai no Espírito. O culto é natural no ser humano. No culto, a Igreja está unida a Cristo: “Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a Si a Igreja, sua esposa muito amada, que invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai” (SC 7). O culto cristão corresponde a sua necessidade, mas participa do culto de Cristo ao Pai. Só em Cristo o culto atinge sua plenitude. Nós nos unimos a Cristo em seu Mistério e em seus mistérios acontecidos entre nós em sua encarnação. É a dimensão memorial que nos dá condições de celebrar os mistérios de Cristo, prestando culto ao Pai, com Ele. Nós não repetimos os fatos nem lembramos como algo que aconteceu. Pela ação litúrgica participamos do único acontecimento que não se repete, mas permanece. Na Eucaristia cumprimos a ordem de Jesus: “Isto é meu corpo que é dado por vós. Fazei isso, em memória de mim” (Lc 22,19). 
Tempos litúrgicos 
As celebrações acontecem na vida de uma comunidade concreta que vive tempos diferentes tanto no tempo físico, como na estrutura litúrgica. Entramos na categoria tempo que é parte integrante do culto. Assim temos tempos diferentes na liturgia que nos inserem nessa realidade. Infelizmente o culto perdeu muito dessa dimensão e passou a ser um texto que se lê. O ano litúrgico, em suas diversas divisões, nos introduz no mistério de Cristo no momento em que vivemos. Sua finalidade é educativa, memorial e missionária. Conhecemos melhor o mistério e o celebramos com mais intensidade de fé e de atuação na vida. Assim temos o Tempo Pascal, o Tempo do Natal e o Tempo Comum. Todos os tempos convergem para a Páscoa. Todas as celebrações vivem essa unidade.