quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

nº 1822 - Homilia do Batismo do Senhor (13.01.19)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista
“Batismo do Senhor” 
O Pai manifesta o Filho
           O Batismo de Jesus é sua Manifestação aos judeus. Nesse momento é o próprio Pai que abre os céus é Lhe dá o Espírito. E dá o sentido desse dom do Espírito como o Amor do Pai: “Tu és meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22). O Batismo de Jesus é uma manifestação do sentido da missão de Jesus: ser amor. Por isso se manifesta o Espírito que é o Amor. O batismo dos cristãos tem essa característica: entrar nesse movimento do amor. Inicia-se uma transformação. Por isso não é só um rito, uma água que jorra. No Batismo se iniciou a missão de Jesus “Vós sabeis o que aconteceu na Judéia, a começar pela Galiléia, depois do Batismo pregado por João... Jesus, cheio do Espírito, andou por toda parte fazendo o bem...” (At 10,38). O batismo de Jesus mais que um rito é uma vida que se torna uma missão. O Batismo do Senhor é uma teofania, uma manifestação de Deus Trindade. Por isso somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Não porque usamos seus Nomes, mas pelo rito de sermos mergulhados nas águas somos mergulhados nesse mistério de amor e assumimos o plano de Deus em Cristo. Não somos batizados para entrar numa religião, mas para participar da vida de Deus. Entramos na Igreja para dar condições para que essa vida seja consistente e possa continuar a manifestação do Filho ao mundo. Cada cristão é uma teofania do amor de Deus que é a missão fundamental de Jesus. Acima de tudo o que possamos fazer.
                                                     Este é meu Filho amado           
            O Batismo é participação no amor do Filho. Por isso também somos chamados de filhos queridos do Pai, como disse a Jesus “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22). O caminho espiritual é corresponder ao Pai no amor, a Jesus como continuadores de sua missão e ao Espírito para jorrar o amor para o mundo. Este não espera outra coisa dos cristãos: quer ser amado no serviço concreto de redenção total do ser humano e do universo. Devemos evitar transformar o batismo em um costume, um rito que não atinge a vida ou uma obrigação. É um dom de Deus que devemos aproveitar ao máximo. Diz o Papa Leão Magno: “Toma consciência, cristão, da tua dignidade.” Após batismo, conduzido pelo Espírito Santo, Jesus vai para o deserto para ser tentado por Satanás (Lc 4,1). A vida cristã é cheia de dificuldades e lutas, pois, para corresponder ao projeto de Deus temos que assumir um caminho forte de seguimento de Jesus. Viveremos como Ele viveu. A missão que Ele recebeu no Batismo, passa ser também a nossa. Essa missão de Jesus não é só tirar pecados, mas começar no mundo a onda do amor do Pai. Essa onda não destrói, mas fecunda o mundo de uma vida nova. O amor pode mudar todas as coisas. O Pai pôs em Jesus todo seu bem querer. O Filho nos pede o mesmo amor.
Ser filho de fato
           Como somos chamados a ouvir o Filho amado, a oração pós-comunhão diz: “chamados de filhos de Deus, nós o sejamos de fato”. Não é possível ser meio cristão. É comum ouvir das pessoas que são católicas, mas não aceitam tudo. Então não o é. Há coisas que não têm nada a ver com a fé. Isso podemos recusar. Mas devemos manter a unidade que é o vínculo da perfeição (Cl 3,14). Nosso compromisso é preciso permanecer Nele e, com Ele, levar o amor ao mundo. Nossa vida cristã não é constituída a partir de um conjunto de ideias, mas de um encontro no qual Deus se manifesta para ser manifestado ao mundo. O Batismo de Jesus era para a Missão, pois já era totalmente de Deus Pai.
Leituras Isaias 42,1-4.6-7/; Salmo 28; Atos 10,34-38; Lucas 3,15-16.21-22
Ficha: nº 1822 - Homilia do Batismo do Senhor (13.01.19) 
1. O Pai manifesta o Filho ao mundo e lhe dá o Espírito para sua missão.
2. O batismo é participação do amor do Filho pelo Pai e pelo mundo.
3. Ser filho de fato. Não é possível ser cristão pela metade. 
Afogado nas águas. 
            Quando somos batizados, o padre joga um pouquinho d’água em nossa cabeça e diz: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Batizar em nome significa mergulhar no Pai, no Filho e no Espírito Santo, isto, unir-nos completamente na vida e pessoa da Santíssima Trindade. Estão certos os que querem batizar nas águas abundantes. Mas não é na quantidade de água que somos batizados, mas no imenso mar da vida do Pai. Para Deus, uma gota d’água ou um oceano vale o mesmo. Mas o Pai é sempre sem medida em sua vida e em seu amor. 
            Se somos mergulhados e participamos tanto dessa vida, temos que viver como vive o Pai, o Filho e o Espírito em sua comunhão de amor e comunhão de abertura ao outro, como são as Três Pessoas Divinas. São tão unidas que são um só Deus. Deus não é solitário ou distante, não precisando de nós. Ele nos atrai e nos envia para que seu dom de amor chegue a todos.

nº 1821 Artigo - “A grande regra de comportamento”

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista 
2142. Felizes os misericordiosos
            Depois de termos refletido sobre as bem-aventuranças, guiados pelo Papa Francisco, continuamos aprendendo seu ensinamento sobre a santidade. Ele o faz em sua exortação apostólica Gaudete et Exultate (Alegrai-vos e exultai). É bom notar que difere muito de certas tradições de vida espiritual baseadas mais em reflexões, às vezes sem o fundamento no Evangelho. Para saber se é evangélico, basta ter o amor como conteúdo. É o que nos diz S. João em sua primeira carta. No texto que vamos refletir, retomamos a bem-aventurança da misericórdia, como nos esclarece o capítulo 25 de Mateus sobre o julgamento final. Diz o Papa: “Se andamos a procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados: “Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e vestistes-Me, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25,35-36) (GE 95). Notemos que aqui estão os graves problemas do mundo. Podemos ver por trás destas palavras também a figura de Jesus com seu modo de agradar o Pai. É como Ele vivia sua santidade. É Cristo no rosto daquele com os quais quis Se identificar”. “Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo” (GE 96). Estudando a história da espiritualidade, não é o que vemos em tantas épocas. Pior é que ainda exercem influência sobre as pessoas.
2113. Por fidelidade ao Mestre
“O texto de Mateus 25,35-36 “não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo” (GE 96). O Papa Francisco continua firme dizendo que esse ensinamento do Evangelho deve ser entendido com clareza e sem desculpas que tirem sua força. Aliás, temos que reconhecer que, infelizmente, o Evangelho não é o fundamento de vida para tantos cristãos. Vejamos a beleza do ensinamento: “O Senhor deixou-nos bem claro que a santidade não se pode compreender nem viver prescindindo destas suas exigências, porque a misericórdia é o “coração pulsante do Evangelho(GE 97). Se as situações tristes do mundo não me tocam, estou realmente muito mal. Mesmo que eu não tenha solução, sou parte da solução. Algo posso fazer. O que destrói nossa fé é a falta de compromisso, como Jesus fazia. Fé que não toca o coração, não tem direito a esse nome. Não adiantam belas palavras e reflexões. Precisamos buscar soluções. Se buscarmos podemos não achar, mas se não buscamos, não achamos mesmo. O mínimo que fazemos pode ser o início. Há tantos meios de fazer alguma coisa. Não será por isso que nossa Igreja tem enfraquecido? Tanto clero como povo, não tomam atitudes.
2144. Contemplação em Cristo
            Só conhecendo bem Jesus, contemplando sua vida e ação, podemos ver o mundo com seus olhos de misericórdia. Mesmo que não saiba o que fazer, “posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer no sofredor um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão!” (GE 98). Não é possível entender a santidade de outro modo. O ser humano é caminho para realizar a santidade esperada por Deus. Não se diz isso por conta de socialismo. É o próprio Jesus quem diz: “Toda vez o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,25,40). Ser santo é fazer como Jesus fazia. “Andar como Ele andou” diz S. João (1Jo 2,6).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

nº 1820 - Homilia da Solenidade da Epifania (06.01.19)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista
“Luz para as nações” 
 Recolhendo as riquezas dos povos
         O Mistério Pascal de Cristo que tem seu início na Encarnação. E, na Glorificação chega à plena realização. No período natalino celebramos a Manifestação (Epifania) do Senhor. A festa tem diversos momentos que celebram Manifestação do Senhor: O Natal, a Epifania, o Batismo e as bodas de Caná.  Na celebração da Epifania, que chamamos também de Festa de Reis, celebramos Jesus que veio para todos. Nós celebramos a Manifestação no Natal. No Oriente, Orientais e Ortodoxos celebram a Manifestação do Senhor no dia 6 de janeiro. A liturgia nos enriquece com tantos e belos textos. Dizemos que o Natal se tornou comércio. Talvez a Igreja não tenha manifestado o Senhor que veio para nós com fé e atitudes coerentes. Criticamos o mundo, mas não vemos que somos culpados. A festa quer também superar questão que perdurava por séculos e ainda continua. Os judeus, como povo escolhido para acolher o Senhor, tinham um tipo de exclusivismo. Foram escolhidos para levar Deus a ser conhecido por todos, não só para eles. É uma alerta também a nós da Igreja que nos esquecemos de nossa missão. Essa celebração significa a busca do coração humano para plenitude. Por isso busca a Deus. Esse é o grande plano de Deus: atrair todos a Si. Vemos países do primeiro mundo que deixaram a fé. Reclamamos do secularismo, mas não reclamamos de nossa incapacidade de levar longe a mensagem do nascimento de Jesus.
Seguindo a estrela
Os Magos simbolizam todos os povos. Não eram reis. Eram sábios que conheciam as Escrituras e esperavam o Messias. Os Magos fazem um longo caminho. Deus se deixa encontrar por quem O procura. Essa longa viagem dos Magos expressa a busca. Eram sinceros e simples. Procuraram e encontraram: Eles foram e encontraram Maria e o Menino. Alegraram-se com uma alegria muito grande (Mt 2,10). Deus é causa de nossa alegria. Não há riqueza maior do que a alegria de estar com Deus. Essa é uma das maiores descobertas do coração humano. Eles abriram seus presentes. A vida doada é o maior presente, mais que ouro, incenso e mirra, símbolos de sua divindade, realeza e sofrimento. Não sabemos o fim dessas ofertas. Sabemos sim que quando entregamos nossa vida damos o maior tesouro a Deus. É isso que Ele quer. Eles voltaram por outro caminho.  Caminhar com Jesus é ter abertura para o novo. Eles souberam que voltar pelo mesmo caminho era anular a riqueza da descoberta de Jesus. Não podemos ter medo das mudanças radicais, desde que sejam pelo evangelho.
As riquezas das nações
Os Magos representam também as muitas culturas da humanidade. Todas elas podem acolher a graça da salvação e vivê-la com a mesma intensidade. Para Mateus, a narrativa significa que o Evangelho é para todos. Paulo, em Efésios, traz esse pensamento (Ef 3,6). Deus veio para todos. Todos podem servir a Deus nas suas culturas e a Igreja não pode se apoiar em uma única cultura, pois empobrece o mistério da salvação que é para todos. As raízes firmes na tradição bíblica, que inclui a cultura do povo judeu, ela se abre para todos os povos. Onde ela é plantada, absorve das culturas tudo o que é apto para o anúncio da salvação. Temos muito que aprender dos povos. O anúncio é da salvação e não de uma cultura que o envolve. A festa dos Santos Reis nos estimula e provoca à evangelização aberta ao mundo. Não diminui o Evangelho, mas o torna aberto a todos.
Leituras Isaías 60,1-6; Salmo 71;  Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12
Ficha
1. A festa da Epifania celebra a Manifestação do Senhor a todos os povos.
2. Os Magos simbolizam todos os povos que buscam e acolhem a chegada de Deus.
3. A festa da Epifania nos questiona sobre como fazemos nossa evangelização.

Sabedoria do velhinho
          
           A cena dos três Magos do Oriente é sempre inquietante. Sabemos que ela é mais um ensinamento que um fato concreto. Seja o que for, o importante é saber que é um ensinamento. Dizemos que são velhos, mas não dariam conta de tal viagem pelo Oriente.
           Não deixa de ser uma lição para nossa idade mais adulta: o que vale é procurar ir encontrar o Senhor, onde ele estiver. E dar o melhor que temos. Cada um tem uma riqueza especial. Ajuntando dá uma beleza especial. Quer melhor fundamento para a terceira idade?
           A lição é para todos. Nosso desafio é uma corrida para chegar ao presépio e pegar a estrela e sair anunciando ao mundo. Guardando todas as coisas no coração.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

nº 1819 Artigo - “Celebração de Maria, Mãe de Deus”

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista 
2139. Cheia do Espírito Santo
É fácil rezar: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores”. Quem começou a dizer assim, o fez com naturalidade. São palavras que trazem em si uma grande doutrina sobre como Deus nos salva em Cristo. O evangelista Lucas coloca na boca de Isabel a saudação: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem que a Mãe do meu Senhor me visite” (Lc 1,42-43). Usa a palavra Senhor (Kýrios), que é o mesmo termo usado para designar Deus no Antigo. É a afirmação da Divindade daquele Menino que Maria trazia no seio. Isabel, “cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41), a chama de “Mãe do meu Senhor”. Quando diz “cheia do Espírito Santo” está dizendo que esse momento é de grande revelação da Divindade presente na Humanidade de Cristo. Dizer que Maria não pode ser chamada Mãe de Deus, é negar que seu Filho seja Deus, pois sua Humanidade subsiste na união total à Divindade que lhe é própria como Filho de Deus. Maria, fazendo parte da humanidade e trazendo em si a Divindade, participa da intercessão que o Filho faz continuamente diante de Deus (1Jo 2,1). Ela também o faz, pois está unida a Ele pela união de todos no Corpo de Cristo (1Cor 12,27), na missão de ser sua Mãe e de todos seus irmãos renascidos pelo batismo. Lucas, que escreveu pelos anos 80, recolheu seus ensinamentos das testemunhas oculares (Lc 1,2). Colheu um uso já tradicional entre as testemunhas. Quando escreve, já há um modo de ser cristão também em referência à Mãe.
2140. Rogai por nós
         Foi encontrado no Egito em 1927 um papiro dos anos 270, onde está escrita aquela oração tão querida: “À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!...”. Já era uso comum da comunidade chamar Maria de Mãe de Deus. O Concílio de Éfeso ensina que Jesus é Deus. Por isso, Maria pode e deve ser chamada Mãe de Deus porque seu Filho era Deus. Continuaremos rezar com toda a Igreja: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Amém. A oração de intercessão é um direito e um dever de todos os fiéis, como escreve Paulo a Timóteo: “Recomendo que se façam pedidos, orações e súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e todos os que detêm autoridade...Eis o que é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,1-4). Rezamos uns pelos outros; os santos rezam por nós; nós rezamos pelos vivos e pelos mortos. Somos um único corpo e fazemos muito bem em interceder, pois é a melhor oração. É caridade para com todos.
                                             2141. No cofre do coração
Nessa celebração de início de Ano encontramos Maria e José e o “Menino deitado na manjedoura” (Lc 3,16). É um belo momento de diálogo das coisas de Deus. Maria e José ouvem dos pastores o que os Anjos lhes disseram. Quanto a “Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Belo modelo de cristã que leva ao laboratório do coração as coisas de Deus e as transforma em vida. Iniciando um novo ano podemos fazer um projeto de vida tomando o modelo da Mãe de Deus e nossa. Ela nos trouxe a bênção que é Jesus. Ela o fez por geração. Nós podemos ser uma bênção para os outros acolhendo e facilitando sua vida com a amizade, o serviço fraterno, o respeito, o carinho e a dedicação para com todos. Somos um evangelho vivo que transmite as verdades com as atitudes. Com a Mãe de Deus tenhamos um ano abençoado, todo de Deus.

domingo, 23 de dezembro de 2018

nº 1818 - Homilia da Festa da Sagrada Família (30.12.18)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista
“Jesus, Maria e José” 
Deus os fez um
           Está entranhado em cada coração o desejo de salvar-se, como se dependesse só da pessoa. Mas Deus não pensou assim quando criou o ser humano, como lemos no primeiro capítulo da Bíblia: “Deus criou o homem a sua imagem; à imagem de Deus, Ele o criou, homem e mulher Ele os criou”  (Gn 1,27). A tradução melhor fica assim: Deus fez o homem (a humanidade). Macho e fêmea os criou. O capítulo 2º descreve a criação do homem e da mulher de um modo diferente, enriquecendo o primeiro capítulo. São textos de época diferente. O que se nota é a unidade fundamental do ser humano feita na complementaridade. Completam-se em todos os aspectos: físicos, psicológicos, espirituais afetivos e tantos mais. Por isso, celebrando a festa da Sagrada Família, lembramos que Deus, para enviar seu Filho ao mundo, quis que o mistério da salvação se realizasse a partir da família. Embora Jesus não seja filho de José segundo a carne, o é segundo o projeto de Deus. Ser família não é um ato social de acordo com as culturas. Também, mas em primeiro lugar é um momento espiritual fundamental para o ser humano no caminho para Deus. Por isso, as virtudes familiares são decorrência dessa unidade primeira. Não diz que para ser família temos que ser bons, mas porque sendo família, temos necessariamente que deixar que elas, as virtudes, floresçam em nós. A família também foi invadida pelo mal do pecado original e tem que procurar, com a fé em Jesus, recuperar sua grandeza.
Família que acolhe
           Como tudo em Deus é misericórdia e amor, as virtudes familiares tendem sempre ao acolhimento. São virtudes que nascem do amor muito concreto na frágil condição humana. Paulo tem certeza que seus fiéis, praticando-as, realizam o evangelho que é a vida da comunidade. Se a família vai bem, a comunidade se sustenta melhor. O amor não é algo poético ou só espiritual. É concreto e toca a carne. Em primeiro lugar o quarto mandamento lembra a obrigação de honrar pai e mãe. Esse mandamento tem a garantia de que sua oração será atendida e garante o perdão dos pecados. Às vezes dizemos que Deus não escuta nossas orações. Mas olhe primeiro como você trata seus pais. Depois faça suas orações com certeza que será escutado. O cuidado com os idosos deve ir até seu momento mais difícil. “A caridade com teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados, na justiça, será para tua edificação” (Eclo 3,15-17). Há todo um modo bonito e frutuoso no relacionamento entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre filhos e pais. Não existe casamento que não dê certo. Basta vivê-lo na maturidade da fé cheia de humanidade.
Quatro estacas
           Paulo, na carta aos Colossenses, nos dá quatro estacas para firmar nossa família: misericórdia, perdão, amor e paz. Com esses pilares e estacas, poderemos firmar nossas famílias. Da misericórdia nascem os demais sentimentos pois ela envolve o ser humano completo no relacionamento. Daí temos a capacidade de perdoar, pois não vamos aos outros de mãos fechadas. Assim podemos amar e viveremos na paz. É muito bom celebrar a festa da Sagrada Família, Jesus, Maria e José. Como nós, eles viveram essas qualidades. Puderam levar adiante a missão que Deus lhes dera preparar o Filho para sua missão.
Leituras: Eclesiástico 3,3-7.14-17;Salmo 127; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,41-52.
Ficha nº 1818 - Homilia da festa da Sagrada Família (30.12.18)

1. O ser humano, na sua criação determina o modo de se viver.
2. O acolhimento é a condição primeira para se viver em família com garantia do céu.
3. Há quatro estacas para viver bem na família: misericórdia, perdão, amor e paz

                   Endereço certo

       É misterioso para nós essa história de Jesus se encarnar e viver numa família. Não foi de mentirinha, um fazer de contas, uma tapeação, o que não condiz com a sinceridade de Jesus. Tudo que o Evangelho nos diz vem da experiência imediata dos primeiros discípulos. Assim notamos a importância da família para a fé cristã, pois foi este o caminho escolhido por Deus. 
       A celebração da Sagrada Família não pretende ensinar a ser família, mas que é o caminho que Deus escolheu para chegar à vida. As virtudes e os compromissos de uma família não são como que um treinamento para ser bom. Eles nascem da família e se desenvolvem para seu bem. 
       Casar é crer que estamos no caminho de Deus.

nº 1817 Artigo - “Natal sempre presente”

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista
2136. Hoje nasceu o Salvador
            “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). O nascimento de Jesus passa despercebido pelo mundo, mas muito sentido pelo Universo que brilha com todas as suas luzes. Isaias, o profeta, narrando a libertação dos oprimidos, relata a alegria dessa libertação com comparações vividas pelo povo. É como a festa de uma colheita bem sucedida. É a alegria da libertação das mãos dos opressores. Tudo isso é garantido pelo nascimento de um menino cheio das graças de Deus. Ele terá grande e eterno futuro (Is 9,1-6). Os anúncios dos profetas falam de luz. A própria oração da missa assim nos faz rezar: “Ó Deus que fizestes resplandecer esta noite com a claridade da verdadeira luz...”. Certamente temos consciência que a festa iluminada não corresponde às luzes e belezas que possamos fazer. Participamos da alegria e da luz de Deus. Deus não age para conosco com dó, mas com participação de sua vida e sua glória. A liturgia do dia faz o anúncio do nascimento de Jesus: “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. A alegria é universal: “Cantai ao Senhor, ó terra inteira!”. “O céu se rejubile exulte a terra, aplauda o mar com tudo o que vive em suas águas. Os campos com seus frutos rejubilem e exultem as florestas e as matas” (Sl 95). O movimento desencadeado com nascimento de Jesus é espiritual, mas envolve a todos. Tudo é Dele e para Ele (Rm 11,36). A consciência do mistério nos leva a compreender que o modo de Deus se manifestar usando nossa própria natureza unida à sua, tem consequências para o mundo e o universo de todos os tempos. Deus não é oculto em seu mistério. Ele se manifestou para nos levar a participar de sua vida e alegria.
2137. Glória a Deus
            Os Céus e todos os seres espirituais cantam de alegria quando o Anjo anuncia aos pastores do nascimento de Jesus em Belém. “De repente juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam e louvavam a Deus dizendo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,13-14). O Universo celeste se manifesta no grande louvor. O nascimento em Belém tem a obscuridade da condição humana, mas tem a beleza de uma festa de Deus. Ele escolheu o caminho da simplicidade pois, para Deus, a palha ou o ouro têm o mesmo valor. As condições de riqueza não lhe interessam. O que manifesta sua glória é a felicidade que o momento contém. Não somos nós a dar critérios para as manifestações de Deus que quer manifestar e mostrar sua benignidade e seu amor. Este será o caminho do Redentor que acaba de nascer. É um profundo mistério dizer que Deus tomou a natureza humana e foi conhecido como homem que dá a todos a condição de chegar a Deus. E Paulo comenta em sua carta: “A graça de Deus se manifestou trazendo a Salvação para todos os homens” (Tt 2,11). 
2138. Nós vimos sua Glória
            Meditar sobre o nascimento de Jesus não é somente admirar a candura e a beleza de uma cena que nos toca o coração. É parar diante do Mistério do Deus que vem fazer parte da nossa humanidade para que ela passe a ter comunhão com Ele. O Verbo Eterno de Deus é sua Palavra Encarnada. Deus vem fazer parte da humanidade. O Menino que nasce em Belém é a expressão Divina da misericórdia do Deus que quer unir todos a si, resgatando da maldade para purificar para Si um povo que lhe pertença. “Nós vimos sua glória, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Deus se oferece e espera que tenhamos uma vida que nos leve ao eterno convívio.  Conhecer a glória de Deus é manifestá-la em nossas atitudes.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

nº 1816 Homilia do 4º Domingo do Advento (23.12.18)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista
“Vim fazer vossa vontade” 
Deus visita seu povo
Maria visita a Isabel não somente por uma questão familiar, mas sim pelo reconhecimento da visita de Deus o seu povo. Zacarias proclama em alta voz: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel que visitou o seu povo e o libertou” (Lc 1,68). Isabel reconhece em Maria essa visita: “Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?” (Lc 1,43). Quando Jesus fazia os milagres o povo reconhecia Nele, por sua ação, uma visita de Deus. Jesus reconhece, na linguagem da Carta aos Hebreus, que sua vinda é a realização da vontade salvífica de Deus. A visita de Deus é para libertação. Isabel diz que Maria é a expressão do acolhimento de Deus: “Bem aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (id. 43). Estando já a caminho do Natal, o salmo nos convida a contemplar as situações difíceis pelas quais passam o mundo e o homem criados por Deus.  Por isso suplica: “Voltai-vos para nós, Deus do universo. Olhai dos altos céus e observai. Visitai a vossa vinha; protegei-a e ao rebento que firmastes” (Sl 79). A celebração memorial do Natal nos traz o clamor da terra e da gente sofrida, como também a resposta de Deus dando seu Filho. Ele sempre vem e nasce, não só em uma lembrança, mas através das atitudes dos que creram. Esses continuam a visita de Deus quando “visitam,” as necessidades dos pobres pastores do mundo atual. Que não seja só um gesto natalino. Já é belo. É bom que essas atitudes sejam permanentes para manter vivo o Natal de Jesus.
Formastes-me um corpo
           Cristo nos redimiu assumindo uma carne semelhante à nossa. De Maria nasceu o Salvador. Em tudo foi igual a nós, menos no pecado (Hb 4,15). O corpo do homem e da mulher, feitos pelas mãos do Pai, foi a habitação do Verbo Eterno que se encarnou. Essa tenda frágil foi alargada (Is 52,2) para acolher o “mais belo dos filhos dos homens” (Sl 4,43). Participando de nossa natureza, cumpriu por nós a obediência ao Pai, pois veio para fazer sua vontade... É graças a essa vontade que somos santificados (Hb 10,8). O sacrifício de Cristo é mais profundo que o sofrimento de seus ferimentos. Ele atinge sua vontade e todo seu ser. É nela que obedece e é capaz de nos santificar. O sacrifício da vontade está unido à sua disposição de se encarnar por desígnio de seu Pai. Uma evangelização consistente exige tomar a carne do povo, viver sua situação e partilhar seus sofrimento e esperanças.  Quando falta essa disposição, nossa linguagem não o atinge. Quando carregarmos com ele sua cruz, aí sim, podemos anunciar. Toda a pastoral que se afasta do homem sofrido, desvia-se da vontade de Deus, por mais belas que sejam nossas vestes e nossas palavras.
Cheguemos à gloria da Ressurreição
           O mistério de Cristo é único e se manifesta de muitos modos. Em todas suas manifestações estão presentes todos os mistérios que se resumem em um, como rezamos: “para que, conhecendo pelo Anjo a encarnação de vosso Filho, cheguemos, por sua Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição”. É um caminho oracional, mas é também o caminho do seguimento de Cristo. “Onde Eu estiver aí estará meu servo” (Jo 12,26). Participamos do mistério de Cristo quando nos dispomos a fazer a vontade do Pai. Nessa vontade acolhemos a santificação. No Natal não há só a beleza da Encarnação, mas já possui o brilho da Ressurreição. Preparemos a festa. A festa do Natal nos ensina que o Mistério da Encarnação se desabrocha na Ressurreição e Glorificação. Glória a Deus nas alturas.
Leituras: Miquéias 5,14ª; Salmo 79; Hebreus 10,5-10; Lucas 1,39-45
Ficha nº 1816 - Homilia do 4º Domingo do Advento (23.12.18)

1. A visita de Deus é para a libertação.
2. Evangelizar é tomar a carne do povo e partilhar seus sofrimentos e esperanças.
3. Participamos do mistério de Cristo quando nos dispomos a fazer a vontade do Pai.

Conversa de comadres

     Na casa de José está um agito danado: Prepara-se uma viagem urgente. Vão para Hebron. É longe. Haja jumento! E para lá partem, José e Maria. Certamente se unem a alguma caravana. Era perigoso. Maria vai visitar sua prima Isabel que, já idosa e estéril estava grávida e no sexto mês.
Normalmente pensamos que era um assunto delas. Preciso ajudar. Vai dar trabalho. E vão para ficar três meses. Não precisava pressa para voltar. Ao chegar já explode a alegria, não de comadres que há tempo não se viam, mas a alegria da salvação. Uma feliz por ter sido tirada da maldição de ser estéril e não ser mãe e a outra, grávida do Espírito Santo e traz no seio, nada menos o Filho Eterno do Pai. A coisa era fina! As duas proclamam as maravilhas de Deus. Maria e Isabel reconhecem a visita de Deus a seu povo. A visita veio para ficar.