domingo, 14 de junho de 2020

nº 1970 - Homilia do 11º Domingo Comum (14.06.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista
“Somos seu povo” 
 Aliança que compromete 
Deus é sempre fiel às suas alianças. Ele promete e cumpre. E não volta atrás quando o parceiro, chamado homem ou povo, não cumpre sua parte. A oração da missa nos leva a pedir: “Dai-nos o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade, seguindo os vossos mandamentos”. Os mandamentos são o código da aliança do Sinai. Deus desperta no povo a certeza que encontramos no salmo: “Sabei que o Senhor, só Ele, é Deus. Ele mesmo nos fez e somos seus, nós somos seu povo e seu rebanho”(Sl 99). A consciência de ser povo vem dos cuidados que Deus teve para com ele todo o tempo. Deus, quando fala na montanha, manda que Moisés diga ao povo como Deus tratou os egípcios por causa Dele. E Se compara à águia: “Vistes o que Eu fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a Mim”. Então cobra obediência aos mandamentos para que seja seu povo: “Se ouvirdes a minha voz e guardardes minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre os povos... E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êx19,4-5). Os castigos aconteceram para corrigir a rota do povo. Jesus usou de misericórdia para com o povo dando-lhe continuadores de sua missão de constituir um povo fundado na bondade de Deus que salva e cura. Por isso é importante ver os sentimentos que Jesus nutria pelo povo sofrido: “Vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Ele tem o coração do Pai que salvou o povo. 
Missão de continuar Jesus 
Moisés narra a bondade com que Deus o constituiu como povo. No evangelho temos o mesmo tema. Os apóstolos são escolhidos e enviados para cuidar do povo da nova aliança. Não será um povo voltado a um cuidado de Deus, mas a um cuidado dos apóstolos em união com Jesus que continua a por em ação a misericórdia e a compaixão pelos sofredores. Isso é fundamental na caminhada do novo povo: “Anunciai que o Reino de Deus está próximo”. Os sinais são claros: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”. Tudo é um presente de Deus “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,7-8). O povo é convocado, não cobrado. A resposta é o reconhecimento da ação de Deus através daqueles que creram em Jesus. Crer não é aceitar uma doutrina, mas um modo de vida. A vida é o primeiro destino do anúncio de Jesus. Preferimos uma doutrina perfeita que não alimenta uma vida para que seja perfeita. O que Deus fez ao seu povo, os discípulos deverão fazer para levar adiante as promessas de Jesus que se cumpre no povo. Ele foi fiel e quer fidelidade. 
Reconciliados 
“Deus nos reconciliou com Ele pela morte de seu Filho. Quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5,10). Esta é a grande prova do amor de Deus por nós: “A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Id 8). Os egípcios pagaram caro a libertação do povo. Jesus assume sobre Si, o que era para nós. Vemos como se estabelece o amor de Deus: não em palavras, mas em atitudes concretas, primeiro em seu Filho e depois, através de seus seguidores que continuarão cuidando das pessoas, sobretudo dos humildes. Todo o povo de Deus é continuador desse amor gratuito do Pai em Cristo. Não fomos feitos para constituir um povo socialmente, mas para ser um povo que atinge todos pelo amor, uma nação santa. 
Leituras Êxodo 19,2-6ª;Salmo 99; 
Romanos 5,6-11;Mateus 9,36-10,8. 
Ficha nº 1970 - Homilia do 11º Domingo Comum (14.06.20) 
1. A consciência de ser povo vem dos cuidados que Deus teve para com ele todo o tempo.
2. Crer não é aceitar uma doutrina, mas um modo de vida.
3. Todo o povo de Deus é continuador desse amor gratuito do Pai em Cristo.
No fritar dos ovos 
É na vida concreta que vamos entender o que significa todo ensinamento de Jesus. É no fritar dos ovos que vemos o que está acontecendo. Tudo o que Deus fez pelo povo escolhido foi continuado por Jesus que assume as atitudes do Pai e passa aos discípulos. Os benefícios de Deus ao povo foram grandiosos. Mas os egípcios pagaram caro com tantas pragas e com a perda de um exército. Os benefícios para nós, os que acreditam, foram pagos na conta de Jesus. Paulo diz: “quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios em tempo marcado... A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,6.8). Pensamos que, assumindo a vida de Cristo em nós, levaremos sobre nós também muitos sofrimentos para que os fracos sejam recuperados.

terça-feira, 9 de junho de 2020

nº 1969 Artigo - “O Santíssimo Sacramento”

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
Graças e Louvores 
Entre nuvens de incenso, tilintar das campainhas, o brilho das vestes, os tapetes das ruas, o perfume das flores e o encanto de um ostensório, há uma Presença; louvamos e agradecemos um Deus que se faz presente em uma pequena hóstia. Mesmo se fosse do tamanho do universo, ela ainda seria pequena. Ali está o Senhor. O livro dos Cânticos dos Cânticos” canta: “Meu amado está do outro lado da parede” (Ct 2,9). Há sempre uma parede que esconde a Divindade. É a parede de nossa humanidade. Mas nada pode esconder a presença Daquele que, por amor, se dignou assumir nossa humanidade. Ele saltou o muro de nossa fragilidade e Se fez um de nós. Querendo deixar uma lembrança de sua presença, deixou-Se como alimento e presença misteriosa nos sinais sacramentais do pão e do vinho consagradas pela ação do Espírito Santo. Não quis vir ao mundo sem assumir nossa natureza. Não quer continuar entre nós, sem nossa natureza. Assim o Espírito que O gerou no seio de Maria, gera-O agora no pão partido. Diante dessa realidade nós louvamos e agradecemos e adoramos. Ele não precisa de nossos arranjos. Ele quer estar ali. “O Mestre está aí e te chama” (Jo 11,28). O povo de Deus, passando pelas diversas fases da história, chegou a um ponto de não compreender a Eucaristia e não participar o suficiente. Então se desenvolveu o culto eucarístico. Tem suas riquezas. Foi um desenvolvimento. Mas... também aqui é necessário uma permanente reflexão para a melhor expressão da fé e da piedade. 
Presença ressuscitada 
Com o tempo, o mistério da Ressurreição passou a ser um milagre que comprovava que era a Paixão de Jesus que salva. Com isso se levou a ver o Ressuscitado vivo presente na Eucaristia. Ali está o Cristo vivo. Como a liturgia se distanciou do povo, sendo feita em uma língua que não conhecia, a devoção ao Santíssimo se enriqueceu de beleza e piedade. Um mistério não anula o outro. A Eucaristia é o Cristo Vivo e Ressuscitado. É o alimento que sustenta a comunidade e une a comunidade num só corpo, unida ao Corpo de Cristo Ressuscitado na Glória e presente na Eucaristia. É triste ver como se desconhece essa presença. Quando é uma celebração solene, sentimos uma presença que atrai e anima. Mas... Ele é o mesmo que está no sacrário humilde, na capelinha esquecida, com risco de se danificar a sagrada Hóstia. Não há necessidade de sinos, incenso, roupas magníficas etc... Ali está o mesmo Senhor da Glória, “chamando, acolhendo todos os que O vêm visitar”. O amor presente na Eucaristia é muito louco. Sto. Afonso diz que somente um Deus louco de amor poderia inventar essa maneira de nos atrair. Ele está ali para nos mostrar o amor e nos atrair ao mesmo amor. 
Amor que atrai 
Os santos cultivam profundo amor e respeito à Eucaristia. Por isso, além da presença em nós e nos outros, temos a presença no sacrário, mesmo humilde. Se não sou capaz de perceber ali Aquele que meu coração ama, e ter os mesmos sentimentos de fé, ainda não tenho fé na Eucaristia. É a fumaça ou o ouro do ostensório que me dão fé? O apreço à “Presença” deve nos levar a buscar sempre mais um relacionamento de fé e amizade. Poderemos aprofundar sempre mais a participação na Eucaristia e à evangelização, a partir deste sacramento. É próprio do amor difundir-se. Agradecemos a Deus a grande missão das comunidades de fazer Jesus sempre mais amado e adorado.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

nº 1968 - Homilia na S. Santíssima Trindade (07.06.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira
Redentorista 
“Deus é o Amor” 
 Acolhei-nos! 
A celebração da festa da Santíssima Trindade é diferente das outras do Ano Litúrgico. No Mistério Pascal celebramos os fatos da vida de Jesus. São acontecimentos. Hoje celebramos o maior mistério de nossa fé. Celebramos o Deus Trindade “professando a verdadeira fé, reconhecendo a glória da Trindade e adorando a Unidade onipotente” (coleta). Quem é Deus? O evangelista João escreve: “Deus ninguém jamais viu. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este no-Lo deu a conhecer (Jo 1,18). Ver Jesus é ver o Pai (Jo 14,8-9). Então, só podemos conhecer a Deus através de suas obras. No correr da história Deus se manifestou como está escrito na carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora a nossos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). Podemos conhecer Deus, não tanto por uma revelação, mas por suas ações de libertação. No plano da salvação sempre teve ações de misericórdia pelos necessitados. Deus nos criou para nos amar e nos acolheu para nos socorrer. O conhecimento de Deus se faz inverso. Começa por sentir que desceu para libertar. Daí se percebe que escolheu o povo e foi o Criador do mundo. Caminhou com o povo, atendendo assim ao pedido de Moisés no Sinai: “Se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco” (Ex 34,9). A proclamação fundamental resume todo o mistério da salvação: “Deus Amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito para que não morra todo aquele que Nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). 
Amor que se comunica 
Há quem diga que se fala muito do Deus misericordioso, mas se deixa de lado sua justiça. Certamente essa justiça é para ser feita aos outros. E para nós... só a bondade? Temos contas a pagar. Até de nós Ele tem toda misericórdia. Olhemos para a misericórdia que tem para conosco para aprendermos a sermos misericordiosos. É próprio do amor se difundir em atos de misericórdia. Misericórdia não é ter dó. Essa não resolve. São necessários atos concretos. O amor verdadeiro gera atitudes concretas em gestos de comunhão. Paulo exorta: “cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2Cor 13,11). Onde há amor, aí Deus está. Aqui devemos compreender que Jesus não veio fundar uma religião, mas implantar o amor que se tornasse uma onda que transformasse toda a realidade do mundo. Temos muito cuidado com as verdades da fé. Mas não há o mesmo empenho com as verdades do amor. Tiago é muito claro ao dizer que “Assim a fé, se não tiver obras, será morta em seu isolamento” (Tg 2,17). “A religião pura diante de Deus e nosso Pai, consiste em assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livres da corrupção do mundo” (Tg 1,27). O amor se comunica em atos. 
Comunhão no Espírito 
A liturgia estimula “a professar a verdadeira fé, reconhecendo a glória da Trindade, adorando a Unidade onipotente” (Oração). O prefácio é um hino: “Proclamando que sois o Deus eterno e verdadeiro, adoramos cada uma das pessoas, na mesma natureza e igual majestade”. Nossa união ao Deus Amor é acolher esse amor transmitido por Jesus. Essa união não é um simples bem querer, mas o grande bem querer de Deus que vivemos no Espírito. Esse amor nos dá a certeza e a garantia de estar em Deus e poder chegar a Ele. Vivemos na terra, mas como vimos na Ascensão de Jesus, estamos já no Céu com Jesus, participando da comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito. Essa comunhão é salvação.
Leituras: Êxodo 34,4b-6.8-9; Cântico de Daniel, 3,52-56; 
2 Coríntios 13,11-13; João 3,16-18 
Ficha nº 1968 - Homilia na S.Trindade(07.06.20) 
1. Podemos conhecer Deus, não só por revelação, mas por suas ações de libertação. 
2. O amor verdadeiro gera atitudes concretas em gestos de comunhão. 
3. Nossa união ao Deus Amor é acolher esse amor transmitido por Jesus. 
Assim dá certo 
Quando nos vemos enrolados e em confusão com os outros, pedimos a Deus que nos livre desses males. A resposta milagrosa imediatamente se faz presente. Deus não faz o milagre. Deixa que nós o façamos. Muito simples. Ser como Deus é: bondoso, de uma bondade que não tem limites nem confins. O milagre é fazer como Deus faz: ser misericordioso e gerar comunhão. Aí a gente não quer. Então... Para realizar uma renovação do mundo é necessário ser como é, Aquele que o fez. João nos ensina: andar como Ele andou, referindo-se a Jesus. Ser como Deus é, não é ser Deus com Ele, mas ter em nós aquelas mesmas qualidades que colocou em Jesus. Aí podemos adorar, louvar, bendizer, ficarmos felizes como Jesus fazia com seu Pai.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

nº 1966 - Homilia da Solenidade de Pentecostes (31.05.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Recebei o Espírito Santo”
Santificais a Igreja 
 A palavra Pentecostes significa cinquenta dias. Festa depois da Páscoa. Os judeus celebravam uma festa cinquenta dias depois do segundo dia da Páscoa. É chamada também festa das colheitas dos grãos. Lembra o período do deserto, no qual os judeus no Sinai recebem a lei e são constituídos como um povo. Com a Páscoa temos a libertação e a vida nova. Em Pentecostes inicia o novo povo. É a primavera do Espírito. A festa está intimamente ligada à Páscoa, pois a Ressurreição no Espírito se torna primavera do amor no Espírito. Por isso, celebrando a festa da Vinda do Espírito Santo, celebramos também a vida da Igreja que é santificada por Ele. Por isso rezamos: “Ó Deus, que pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa igreja inteira em todos os povos e nações”. Não estamos lembrando um acontecimento. Estamos vivendo esse momento da História da Salvação que acontece conosco agora. E pedimos: “Derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito”. O sentido memorial significa atualização. Nós nos fazemos presente ao acontecimento real. O histórico aconteceu. A vinda do Espírito acontece hoje e em cada celebração. Nada fazemos sem o Espírito (1Cor 12,3b). O texto enumera o país de origem das pessoas presentes no momento. Podemos ver que a localização dos diversos povos faz um círculo em torno de Jerusalém. Não mais a cidade, mas a Igreja está em todos os povos. E é santificada hoje pelo Espírito. Todas as línguas e culturas podem receber o anúncio do Evangelho. 
Realizai as maravilhas 
Pedimos na oração: “Derramai em toda extensão do mundo os dons do Espírito e renovai no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”. É o projeto salvador de Deus que o Espírito Santo leve o Mistério Pascal de Cristo a acontecer em todos os povos. As maravilhas operadas não são dons pessoais, mas dons a serviço da humanidade. Jesus diz naquela noite de Páscoa: “A paz esteja convoco!” A paz, o Shalom de Deus, compreende tudo o que há de bom e Deus nos oferece. Por que repete a saudação? Não era uma paz somente para os discípulos ali presentes, mas aberta a todos. “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Cabe a nós implantar, pela ação do Espírito, uma reconciliação universal. Participamos ativamente da ação do Espírito na renovação do mundo, missão que o Pai confiou a Jesus que a faz no Espírito. “A quem não perdoardes os pecados, eles serão retidos”. Não que o Espírito negue o perdão, mas, sem a mudança os pecados permanecem. As maravilhas renovadas não são somente dons especiais, mas a capacidade de provocar a conversão do coração a todos. 
Há diversidade de dons 
O Espírito que nos foi dado nos dá tantos dons. “A cada um é dada uma manifestação do Espírito, para o bem comum. Como os membros do corpo, cada um tem uma função para todo o corpo. Pena que os dons atualmente são vistos como adereços espirituais que nos fazem maiores. Maior é aquele que serve, disse Jesus (Lc 22,27-29). Embora sendo muitos, formamos um só corpo, pois bebemos do mesmo Espírito (1Cor 12,13). A Igreja necessita sempre do Espírito para realizar sua missão. Quando não somos capazes de ouvir o Espírito e colocar os dons a serviço, não somos capazes de servir à Igreja na obra da evangelização. Fazemos feudos espirituais, e “rasgamos a túnica inconsútil de Jesus”. A unidade no Corpo de Cristo, quando ferida, torna-se um escândalo e um mal. 
Leituras Atos 2,1-12; Sal o 103; 
1 Coríntios 12,3b-7.12-13;João 20,19-23 
Ficha nº 1966 - Homilia da 
Solenidade de Pentecostes (31.05.20) 
1. Celebramos a vida da Igreja que é santificada pelo Espírito. 
2. É projeto de Deus que o Espírito leve a vida de Cristo a acontecer em todos os povos. 
3. A Igreja necessita sempre do Espírito para realizar sua missão. 
O fogo cai, cai..
O corpo de bombeiros do Céu, a todo vapor (não usava petróleo) baixa à terra para apagar um grande incêndio. Era fogo para todo lado. Na cabeça de muitos havia uma chama perigosa e outros pedindo que eles fossem incendiados. Era muita confusão. Aí um meio cambaleante diz: Não estamos de fogo. É o Espírito prometido: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne” (Jl 3,1-5). Aí acalmaram. Mas até hoje estão de prontidão, pois a todo o momento esse Espírito está botando fogo em algum lugar. Celebrar Pentecostes é entrar nesse fogo que, como a sarça de Moisés, queima sem consumir.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

nº 1964 - Homilia da Ascensão do Senhor (24.05.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Ascensão do Senhor” 
 Subiu entre aclamações 
É festa no Céu! O Filho de Deus que se encarnou, anunciou o Reino, morreu, ressuscitou e subiu ao Céu. Paulo diz: “Deus manifestou sua força em Cristo, quando O ressuscitou dos mortos e O fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda autoridade, poder, potência, sabedoria ou qualquer outro título... no céu e na terra” (Ef 1,20-21). Sem a Ascensão, não estaria completa a ação de Cristo no mundo. Nem haveria condições de nos enviar o Espírito Santo para a realização de sua obra salvadora. Normalmente a celebração não passa de um “fim de festa” e não tem valor dentro da comunidade. É festa que passa. Mas é fundamental para o mistério de Cristo e para nossa vida Nele. Naquele momento, em que Ele foi levado, começou o tempo da Igreja. Não é para olhar para o alto. Há um mundo inteiro e por séculos infinitos para acolher a redenção que nos foi dada e o Espírito que nos sustenta e faz a Igreja. Vemos que Mateus, em poucas palavras, resume o significado desse momento: Jesus disse: “Toda autoridade me foi dada”. É solene e garantida a missão: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”, santificando-os pelo batismo, fazendo-os passar do paganismo à Vida Divina, ensinando tudo o que o Senhor nos deu, ensinando a observar tudo o que foi ensinado. Vemos a mudança total: “Fazei discípulos meus, todos os povos”. Está aberta a fé ao mundo pagão. Todos são chamados a ser corpo com Cristo Ressuscitado. Assim se abre totalmente a porta da eternidade feliz para todo o mundo. Todo universo vai chegar à glorificação.
Ascensão é nossa vitória 
A Ascensão não é só um fato da vida de Jesus que aconteceu na dinâmica de sua obra redentora. Estamos envolvidos em seu retorno para casa do Pai. Cito um texto de Sto. Hilário, do século IV (Anos 300) refletindo sobre a união com a Santíssima Trindade através de Cristo: “Ele está no Pai pela natureza divina, e nós estamos Nele pelo seu nascimento corporal; além disso, Ele também está em nós pelo mistério dos sacramentos”... “somos um só, porque o Pai está em Cristo e Cristo está em nós. Portanto Ele está em nós pela sua carne e nós estamos Nele; e, através Dele, o que nós somos, está em Deus” (Tratado sobre a Trindade). Por isso a oração diz: “A ascensão de vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria, pois como membros do seu corpo, somos chamados, na esperança, a participar de sua glória”. Com a entrada de Jesus no Céu, nós que participamos de seu corpo, já temos garantida nossa vitória. Se a Cabeça do Corpo Místico, Cristo, entrou, todo corpo está junto. Na pós-comunhão dizemos: “Vós nos concedeis conviver na terra com as realidades do Céu”. “Vivemos as realidades do Céu”. Assim temos a consequência: “Que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós nossa humanidade. 
Ide e fazei discípulos meus 
Na Ascensão Jesus dá a ordem de se iniciar a evangelização do mundo: “Toda autoridade me foi dada no céu sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (Mt 28,18-20). Agora é o tempo da Igreja, unida a Cristo, com todo o poder que Jesus lhe confere. A Igreja está sempre em missão. Sempre anunciando o que Jesus ensinou. Todos, não somente os ministros, são responsáveis pela evangelização do mundo. O Cristianismo tende a um espiritualismo individualista que tira a responsabilidade pessoal de evangelizar. É só consumismo espiritual. Isso mata a Igreja.
Leituras:Atos 1,1-11;salmo 46; 
Efésio 1,17-23; Mateus 28,16-20 
Ficha nº1964-Homilia da Ascensão do Senhor(24.05.20) 
1. Todos são chamados a ser corpo com Cristo Ressuscitado. 
2. Estamos envolvidos com Jesus em sua volta para casa do Pai. 
3. A Igreja está sempre em missão. Sempre anunciando o que Jesus ensinou. 
Furando o Céu 
O Céu sempre foi distante. Sempre ouvimos: Altos céus. Subir aos céus. Sempre foi uma batalha a história de perder o Céu e viver com medo de não conseguir chegar lá. No fundo a gente não acredita muito porque não entende. O que é o Céu? Todas as imagens que vemos nos desanimam. Há umas imagens muito feias. Dá vontade de ver o concorrente. A celebração da Ascensão do Senhor é um aperitivo para nós. Ele foi na frente. Mas nos levou a tiracolo, pois sua natureza humana é a nossa. Como temos a mesma natureza, já estamos lá. Certo que não pegamos ainda o gosto. À medida que nos unimos a Ele vamos saboreando. Entramos no Céu porque estamos unidos a Ele pela nossa natureza e Ele nos dá a sua natureza Divina que Nele formam uma só Pessoa.

nº 1962 - Homilia do 6º Domingo da Páscoa (17.05.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Darei outro Defensor” 
 Não vos deixarei órfãos 
Jesus sintetiza durante a santa Ceia, no dizer de João, todo seu ensinamento. Os discípulos podem Coompreender que o Mestre lhes passa, não somente um ensinamento, mas entrega-se a eles, como fez na Eucaristia. Faz uma grande revelação de Si mesmo. O evangelho de João concentra o núcleo do ensinamento de Jesus. Dizemos que Jesus dá o Espírito Santo. Aqui temos a revelação de quem é o Espírito Santo: “Se me amais, guardareis meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Defensor, para que permaneça sempre convoco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,15-17). Por isso não ficaremos órfãos (Jo 14,18). É o Dom de Jesus, prometido cinco vezes durante a Ceia: Espírito da Verdade (Jo 14,16-17). É o mesmo que estava em Jesus. Está unido a Ele que diz: “Eu sou a Verdade”. Dará testemunho de Jesus, que não é uma verdade inacessível. Ele ensinará tudo. Nada ficará oculto. Mais ainda: Ele será a memória permanente. Nada se perdera de tudo o que foi dito e precisamos saber. Não precisamos de novas doutrinas. Vemos pela história como a verdade passa pelos tempos, sempre a mesma, explanada com clareza pela sabedoria da Igreja e de seus filhos. Jesus, o intercessor junto do Pai, dá-nos um defensor, o Espírito Santo. O mesmo testemunho que o Espírito dá, os fiéis darão, com sua garantia. Sempre será um questionador do mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento (Id 7-11). Conduz à plena verdade, pois nos ensina o que recebeu do Filho (id 11-17). Nós cristãos, não temos consciência da ação do Espírito Santo como realizador da Igreja. 
Frutificar o sacramento pascal 
A oração da Pós-Comunhão faz um pedido que quer levar à prática os frutos da Ressurreição de Cristo: “Oh Deus, que pela Ressurreição de Cristo nos renovais para a vida eterna, fazei frutificar em nós o sacramento pascal e, infundi em nossos corações a força desse alimento salutar”. A Eucaristia nos faz participar no mistério da Ressurreição de Cristo, num momento espiritual, entramos em comunhão e somos conduzidos por este defensor à prática. Celebrar é viver. Em sua entrega ao Pai, Jesus levou-nos com Ele e se faz presente em nós quando O levamos em nossas ações. Assim ressuscitamos o mundo para que seja sempre de acordo com os sentimentos de Jesus. Jesus passou entre nós fazendo o bem. É sua garantia de Ressurreição. Sempre está seguro do que faz, porque faz o que o Pai quer, como vemos no Horto das Oliveiras: “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice, contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Frutificamos quando buscamos viver o Evangelho . Seus mandamentos não são pesados (1Jo 5,3). Não podemos olhar a Ressurreição de Jesus só como algo espiritual. Ela é vida. 
Vida que corresponda ao mistério 
Rezamos na oração da coleta: “Ó Deus, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra de Cristo ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”. O que vemos nessa oração? A celebração é louvor, mas vai também à vida. Como viver um mistério? “A vida corresponda ao mistério”. A primeira correspondência são os sacramentos. Eles penetram a vida com sua dinâmica redentora e mestra de vida. Vivemos a salvação e a levamos à vida, seguindo as significações do sacramento. Cristo fez o caminho da morte para a vida. Nós o realizamos em nossas ações tirando de nós o que é morte para plantar a vida. Como? Vivendo como Ele viveu no amor de permanente entrega aos irmãos. Para se entregar é preciso desprender-se de todo mal.
Leituras: Atos 8,5-8.14-17; Salmo 65; 
1 Pedro 3,15-18; João 14,15-21. 
Ficha nº1962-Homilia do 6º Domingo da Páscoa(17.05.20) 
1. Não temos consciência da ação do Espírito Santo como realizador e defensor da Igreja. 
2. A Eucaristia nos faz participar no mistério da Ressurreição de Cristo. Por ela somos conduzidos à prática. 
3. Os sacramentos penetram nossa vida com sua dinâmica redentora e mestra de vida. 
Vôo do Espírito 
Temos o costume de representar o Espírito Santo como uma pombinha. Na verdade o que representa o Espírito é o vôo da pomba. Esse belo movimento lembra o movimento do Espírito. Não depende de nós. Ele é fascinante e tudo penetra. Assim é a ação do Espírito Santo que paira sobre nós e nos envolve. Ele sempre esteve presente na Igreja, pois não depende dela. Ela nasce Dele e por Ele é sustentada, mesmo que não tenha consciência. É hora de nos abrirmos mais para conhecê-Lo e acolhê-Lo sempre mais.
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terça-feira, 5 de maio de 2020

nº 1960 - Homilia do 5º Domingo da Páscoa (10.05.20)

Pe. Luiz Carlos de Oliveira 
Redentorista 
“Não se perturbem” 
 Eu sou o Caminho 
 São João nos traz em seu evangelho, como que o derramar do coração de Jesus cheio de ternura pelos seus “filhinhos”. Ali o discípulo amado bebeu da própria fonte as riquezas de nossa fé. Primeiramente garante que não os esquecerá. E mais: “Vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2). Quando estiver pronto esse lugar, virá buscá-los para estar com Ele, pois já conhecem o caminho. Tomé questiona: “Não sabemos para onde vais. Como poderemos conhecer o caminho” (Id 5). A resposta ecoa pela Igreja como base para tudo. Jesus responde: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (id 5). Fé cristã só se realiza em Jesus. Não há outra opção, pois existe uma única fé. Uns estão mais próximos e outros distantes. Jesus não é uma ideia, um conhecimento. Ele é a Verdade Viva. Há verdades escritas, mas Ele as torna vivas. É o único caminho para o Pai. Há gente que se blasona de ser ateu, ou ter uma religião própria ou... ou... Mas o mínimo que tenha (pois todos tem) está unido a Jesus. Assim está unido ao Pai, pois é o único Caminho. Ele é o caminho. Vimos que Ele é a Porta. Só por Ele se entra na fé, se vai ao Pai e se vai ao mundo. A centralidade de Jesus é fundamental. Há muita espiritualidade, muita devoção a santos, novenas, orações milagrosas, medalhas, correntes... Tudo bom, mas se Jesus não for o centro e o caminho, não vai haver a Vida. Ele é a Vida. Se crermos e o temos como centro, temos a Vida. Essa Vida se manifesta nas obras. Suas obras manifestavam a vida que Ele tinha junto ao Pai. 
Igreja de pedras viva 
Pedro apresenta mais uma aspecto de Cristo: Ele é a pedra angular. Nós somos pedra vivas: “Vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Há em nossa fé um sentido de continuação do que Cristo era e fazia. Jesus disse em sua primeira aparição depois da Ressurreição: “Como o Pai me enviou, Eu vos envio” (Jo 20,21). Também diz: “Essa continuação não se refere somente aos apóstolos. Jesus rezou: “Não rogo somente por eles (apóstolos), mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim” (Jo 17,20). Tudo que estava em Cristo para nossa salvação está na Igreja em seus sacramentos e em seus fiéis. A Igreja não é um edifício de tijolos, mas de pessoas. Cristo é o fundamento de todo esse edifício. Como pedras vivas, diz Pedro: “Vós sois raça escolhida, o sacerdócio do Reino, a nação santa, o povo que ele conquistou para proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a luz maravilhosa” (id. 9).
Igreja é serviço 
A Igreja é espiritual e continua a Encarnação de Cristo. Mas está ainda nas condições humanas, como foi Jesus. Deve usar todos os meios para evangelizar e levar todos a viver e a construir o Reino de Deus na terra. Vive a condição humana e se organiza criando serviços e usando os dons que o Espírito concede. Por isso podemos entender o porquê da instituição de homens que se dediquem à caridade. São escolhidos sete “homens de boa fama, repletos do Espírito Santo e sabedoria” (At 6,3). Recebem a imposição das mãos. Por que os apóstolos criam esse ministério que se firmou como parte do sacerdócio de Cristo? Para que pudessem se dedicar inteiramente à oração e ao serviço da Palavra. Essa dimensão é essencial no exercício do sacerdócio. Por oração podemos entender a celebração dos sacramentos, e também como seguimento do Cristo Orante. 
Leituras: Atos 6,1-7;Salmo 32; 
1 Pedro, 2,4-9; João 14,1-12 
Ficha nº 1960 - Homilia do 5º Domingo da Páscoa (10.05.20) 
1. Fé cristã só se realiza em Jesus.
2. Tudo que estava em Cristo para nossa salvação está na Igreja em seus sacramentos. 
3. A Igreja deve usar todos os meios para evangelizar e a construir o Reino de Deus. 
Atalho que deu certo 
Diz-se que nem sempre o atalho encurta caminho. Para ir para o Pai não existe caminho mais curto que coma etapas. Há um só caminho: Jesus. Ele mesmo disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 10,6). Tem razão de ser assim, pois Ele foi o enviado do Pai para a salvação. Ele tem o mapa do caminho, tem as indicações e o sustento. É claro que é bom fazer outros caminhos que não comprometam a vida, como comprometeu a vida de até o extremo. Fazer uma religião a nosso modelo é mais fácil, mas é um caminho perigoso. Quer saber como discernir? Jesus responde: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição” (Mt 7,13). Jesus fez um atalho nesse caminho largo. Deu certo.